Esperança e desespero de alimento
Me servem neste dia em que te espero
E já não sei se quero ou se não quero
Tão longe de razões é o meu tormento.
Mas como usar amor de entendimento?
Daquilo que te peço desespero
Ainda que m'o dês - pois o que eu quero
Ninguém o dá senão por um momento.
Mas como és belo, amor, de não durares,
De ser tão breve e fundo o teu engano,
E de eu te possuir sem tu te dares.
Amor perfeito dado a um ser humano:
Também morre o florir de mil pomares
E se quebram as ondas no oceano.
25/05/07
Amor é um fogo que arde sem se ver
Amor é um fogo que arde sem se ver,
É ferida que dói, e não se sente;
É um contentamento descontente,
É dor que desatina sem doer.
É um não querer mais que bem querer;
É um andar solitário entre a gente;
É nunca contentar-se de contente;
É um cuidar que ganha em se perder.
É querer estar preso por vontade;
É servir a quem vence o vencedor;
É ter, com quem nos mata, lealdade.
Mas como causar pode seu favor
Nos corações humanos amizade,
Se tão contrário a si é o mesmo amor?
É ferida que dói, e não se sente;
É um contentamento descontente,
É dor que desatina sem doer.
É um não querer mais que bem querer;
É um andar solitário entre a gente;
É nunca contentar-se de contente;
É um cuidar que ganha em se perder.
É querer estar preso por vontade;
É servir a quem vence o vencedor;
É ter, com quem nos mata, lealdade.
Mas como causar pode seu favor
Nos corações humanos amizade,
Se tão contrário a si é o mesmo amor?
Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades
Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades,
Muda-se o ser, muda-se a confiança;
Todo o tempo é composto de mudança,
Tomando sempre novas qualidades.
Continuamente vemos novidades,
Diferentes em tudo da esperança;
Do mal ficam as mágoas na lembrança,
E, do bem, se algum houve, as saudades.
O tempo cobre o chão de verde manto,
Que já coberto foi de neve fria,
E em mim converte em choro o doce canto.
E, afora este mudar-se cada dia,
Outra mudança faz de mor espanto:
Que não se muda já como soía.
Muda-se o ser, muda-se a confiança;
Todo o tempo é composto de mudança,
Tomando sempre novas qualidades.
Continuamente vemos novidades,
Diferentes em tudo da esperança;
Do mal ficam as mágoas na lembrança,
E, do bem, se algum houve, as saudades.
O tempo cobre o chão de verde manto,
Que já coberto foi de neve fria,
E em mim converte em choro o doce canto.
E, afora este mudar-se cada dia,
Outra mudança faz de mor espanto:
Que não se muda já como soía.
O tempo acaba o ano, o mês e a hora
O tempo acaba o ano, o mês e a hora,
A força, a arte, a manha, a fortaleza;
O tempo acaba a fama e a riqueza,
O tempo o mesmo tempo de si chora.
O tempo busca e acaba o onde mora
Qualquer ingratidão, qualquer dureza;
Mas não pode acabar minha tristeza,
Enquanto não quiserdes vós, Senhora.
O tempo o claro dia torna escuro,
E o mais ledo prazer em choro triste;
O tempo, a tempestade em grã bonança.
Mas de abrandar o tempo estou seguro
O peito de diamante, onde consiste
A pena e o prazer desta esperança.
A força, a arte, a manha, a fortaleza;
O tempo acaba a fama e a riqueza,
O tempo o mesmo tempo de si chora.
O tempo busca e acaba o onde mora
Qualquer ingratidão, qualquer dureza;
Mas não pode acabar minha tristeza,
Enquanto não quiserdes vós, Senhora.
O tempo o claro dia torna escuro,
E o mais ledo prazer em choro triste;
O tempo, a tempestade em grã bonança.
Mas de abrandar o tempo estou seguro
O peito de diamante, onde consiste
A pena e o prazer desta esperança.
24/05/07
Tanto de meu estado me acho incerto
Tanto de meu estado me acho incerto,
Que, em vivo ardor, tremendo estou de frio;
Sem causa, juntamente choro e rio;
O mundo todo abarco, e nada aperto.
É tudo quanto sinto um desconcerto;
Da alma um fogo me sai, da vista um rio;
Agora espero, agora desconfio,
Agora desvario, agora acerto.
Estando em terra, chego ao Céu voando;
Numa hora acho mil anos, e é de jeito
Que em mil anos não posso achar uma hora.
Se me pergunta alguém porque assi ando,
Respondo que não sei; porém suspeito
Que só porque vos vi, Senhora.
Que, em vivo ardor, tremendo estou de frio;
Sem causa, juntamente choro e rio;
O mundo todo abarco, e nada aperto.
É tudo quanto sinto um desconcerto;
Da alma um fogo me sai, da vista um rio;
Agora espero, agora desconfio,
Agora desvario, agora acerto.
Estando em terra, chego ao Céu voando;
Numa hora acho mil anos, e é de jeito
Que em mil anos não posso achar uma hora.
Se me pergunta alguém porque assi ando,
Respondo que não sei; porém suspeito
Que só porque vos vi, Senhora.
23/05/07
aparte 19
No jogo da sedução, não há caçador nem caçado, porque cada um é ambos. Também não há dia de abertura de caça – está aberta todo o ano. Convém, no entanto, ter carta de caçador e licença de uso e porte de arma. Para mais informações sobre como as obter, consulte o “Manual de Vida”, capítulo “Estar Atento”, subcapítulo “Gostar dos Outros”. Para a manutenção de ambas as espécies, não há bibliografia disponível, mas dizem que a preservação de “Saber Ser” tem dado resultados satisfatórios e permite o equilíbrio do ecossistema.
22/05/07
aparte 18
Podemos pintar toda a natureza, fotografar todas as pessoas, captar qualquer momento, registar todos os sons, mas nunca conseguiremos descrever a paisagem que temos na alma.
aparte 16
Na vida, fazem-se duas coisas: dorme-se e está-se acordado.
Se se dorme, é porque há sono; se se está acordado, quando seria lógico estar-se a dormir, é porque:
1 - a lógica deixa de ter validade, deixa de ser lógica;
2 - a sede de viver é superior à lógica.
Cansaço é o tipo que se está borrifando para qualquer lógica que não seja a dele e que, ainda por cima, goza com a vontade própria de cada um.
Se se dorme, é porque há sono; se se está acordado, quando seria lógico estar-se a dormir, é porque:
1 - a lógica deixa de ter validade, deixa de ser lógica;
2 - a sede de viver é superior à lógica.
Cansaço é o tipo que se está borrifando para qualquer lógica que não seja a dele e que, ainda por cima, goza com a vontade própria de cada um.
aparte 14
Quando alguém que, por mero acaso, vai ao mesmo café que nós, nos cumprimenta sorridentemente e nos esquecemos que no dicionário também existe a palavra cinismo, estamos perante uma ilusão de óptica.
Por falar nisso, sorriso amarelo é aquele que aflora quando nos encontramos frente a frente com quem desejamos ver pelas costas.
Por falar nisso, sorriso amarelo é aquele que aflora quando nos encontramos frente a frente com quem desejamos ver pelas costas.
21/05/07
Prólogo
(...)
os políticos não são inteiramente galinhas porque cacarejam e não põem ovos;
(...)
os gestores destilam um suor frio que nos constipa;
(...)
os intelectuais são uma chatice com que o Criador não contava
(...)
o sistema é a creche da debilidade mental e a vala comum da inteligência;
(...)
a economia é adquirir-se o vício do fumo porque se comprou um isqueiro; (...)
os políticos não são inteiramente galinhas porque cacarejam e não põem ovos;
(...)
os gestores destilam um suor frio que nos constipa;
(...)
os intelectuais são uma chatice com que o Criador não contava
(...)
o sistema é a creche da debilidade mental e a vala comum da inteligência;
(...)
a economia é adquirir-se o vício do fumo porque se comprou um isqueiro; (...)
Etiquetas: aparte
"A Ilha de Circe",
1983,
Natália Correia,
Publicações Dom Quixote
AS BELAS MENINAS PARDAS
As belas meninas pardas
são belas como as demais.
Iguais por serem meninas,
pardas por serem iguais.
Olham com olhos no chão.
Falam com falas macias.
Não são alegres nem tristes.
São apenas como são
todos os dias.
E as belas meninas pardas,
estudam muito, muitos anos.
Só estudam muito. Mais nada.
Que o resto, traz desenganos...
Sabem muito escolarmente.
Sabem pouco humanamente.
Nos passeios de domingo,
andam sempre bem trajadas.
Direitinhas. Aprumadas.
Não conhecem o sabor que tem uma gargalhada
(Parece mal rir na rua!...)
E nunca viram a lua
debruçada sobre o rio,
às duas da madrugada.
Sabem muito escolarmente.
Sabem pouco humanamente.
E desejam sobretudo, um casamento decente...
O mais, são histórias perdidas...
Pois que importam outras vidas,?...
outras raças?..., outros mundos?...
que importam outras meninas,
falizes ou desgraçadas?!...
As belas meninas pardas,
dão boas mães de família,
e merecem ser estimadas...
(1959 Fevereiro)
são belas como as demais.
Iguais por serem meninas,
pardas por serem iguais.
Olham com olhos no chão.
Falam com falas macias.
Não são alegres nem tristes.
São apenas como são
todos os dias.
E as belas meninas pardas,
estudam muito, muitos anos.
Só estudam muito. Mais nada.
Que o resto, traz desenganos...
Sabem muito escolarmente.
Sabem pouco humanamente.
Nos passeios de domingo,
andam sempre bem trajadas.
Direitinhas. Aprumadas.
Não conhecem o sabor que tem uma gargalhada
(Parece mal rir na rua!...)
E nunca viram a lua
debruçada sobre o rio,
às duas da madrugada.
Sabem muito escolarmente.
Sabem pouco humanamente.
E desejam sobretudo, um casamento decente...
O mais, são histórias perdidas...
Pois que importam outras vidas,?...
outras raças?..., outros mundos?...
que importam outras meninas,
falizes ou desgraçadas?!...
As belas meninas pardas,
dão boas mães de família,
e merecem ser estimadas...
(1959 Fevereiro)
Etiquetas: aparte
"POESIA",
1979,
Alda Lara,
Luanda,
União dos Escritores Angolanos
(24)
Depois de longas negociações
sua excelência
aceitou a indicação
para o cargo
pondo como única condição
democrática
ser eleito
sua excelência
aceitou a indicação
para o cargo
pondo como única condição
democrática
ser eleito
Etiquetas: aparte
"Poemas Cívicos",
1979,
Editorial Fronteira,
joão apolinário
18/05/07
aparte 13
Dez horas
Praia aberta
Na torre
O relógio marca o tempo
Do hino se enche o ar
São toalhas que se estendem
Mãe, posso ir brincar?
Maré baixa
Águas límpidas
Mar calmo que oferece
Na areia as brincadeiras
Que a minha infância conhece:
castelos a construir,
“piscina” improvisada
o “prego” metia adultos
como o “ringue” que voava.
Chegada a hora do banho
De gente o mar fervilha
E, ao colo, em aflição,
um ritual a cumprir
no meio da agitação
é hora dos olhos fechar
que esta onda é ideal
a cabeça a mergulhar
e, num segundo, só se ouve
o próprio silêncio do mar!
Olh’ó Rajá!
Olh’à bolacha americana!
Olh’ó barquilho!
A roda com força a girar
E nós suspensos do número
Que em sorte nos ia calhar…
Sabores da minha infância
E sons que não quero esquecer
Também nessas brincadeiras
Fui aprendendo a crescer.
(Hino oficial da Figueira da Foz no site do Município: http://www.figueiradigital.com/cmff/?nodeid=1&subnodeid=11 )
Praia aberta
Na torre
O relógio marca o tempo
Do hino se enche o ar
São toalhas que se estendem
Mãe, posso ir brincar?
Maré baixa
Águas límpidas
Mar calmo que oferece
Na areia as brincadeiras
Que a minha infância conhece:
castelos a construir,
“piscina” improvisada
o “prego” metia adultos
como o “ringue” que voava.
Chegada a hora do banho
De gente o mar fervilha
E, ao colo, em aflição,
um ritual a cumprir
no meio da agitação
é hora dos olhos fechar
que esta onda é ideal
a cabeça a mergulhar
e, num segundo, só se ouve
o próprio silêncio do mar!
Olh’ó Rajá!
Olh’à bolacha americana!
Olh’ó barquilho!
A roda com força a girar
E nós suspensos do número
Que em sorte nos ia calhar…
Sabores da minha infância
E sons que não quero esquecer
Também nessas brincadeiras
Fui aprendendo a crescer.
(Hino oficial da Figueira da Foz no site do Município: http://www.figueiradigital.com/cmff/?nodeid=1&subnodeid=11 )
17/05/07
Lisboa Menina e Moça
No Castelo ponho um cotovelo
Em Alfama descanso o olhar
E assim desfaço o novelo
De azul e mar.
À Ribeira encosto a cabeça
Almofada na cama do Tejo
Com lençóis bordados à pressa
Na cambraia de um beijo.
Lisboa menina e moça, menina
Da luz que meus olhos vêem, tão pura
Teus seios são as colinas, varina
Pregão que me traz à porta, ternura.
Cidade a ponto-luz bordada
Toalha à beira-mar estendida
Lisboa menina e moça, amada
Cidade mulher da minha vida.
No Terreiro eu passo por ti
Mas da Graça eu vejo-te nua
Quando um pombo te olha sorri
És mulher da rua.
E no bairro mais alto do sonho
Ponho o fado que soube inventar
Aguardente de vida e medronho
Que me faz cantar.
Em Alfama descanso o olhar
E assim desfaço o novelo
De azul e mar.
À Ribeira encosto a cabeça
Almofada na cama do Tejo
Com lençóis bordados à pressa
Na cambraia de um beijo.
Lisboa menina e moça, menina
Da luz que meus olhos vêem, tão pura
Teus seios são as colinas, varina
Pregão que me traz à porta, ternura.
Cidade a ponto-luz bordada
Toalha à beira-mar estendida
Lisboa menina e moça, amada
Cidade mulher da minha vida.
No Terreiro eu passo por ti
Mas da Graça eu vejo-te nua
Quando um pombo te olha sorri
És mulher da rua.
E no bairro mais alto do sonho
Ponho o fado que soube inventar
Aguardente de vida e medronho
Que me faz cantar.
Etiquetas: aparte
Poema de Ary dos Santos e Música de Paulo de Carvalho
Trinta Dinheiros
No bengaleiro do mercado público
penduraram o coração.
Vestem o fato dos domingos fáceis.
Não têm rosto
têm sorrisos muitos sorrisos
aprendidos no espelho da própria podridão.
Têm palavras como sanguessugas.
Curvam-se muito.
As mãos parecem prostitutas.
Alma não têm. Penduraram a alma.
Por fora parecem homens.
Custam apenas trinta dinheiros.
penduraram o coração.
Vestem o fato dos domingos fáceis.
Não têm rosto
têm sorrisos muitos sorrisos
aprendidos no espelho da própria podridão.
Têm palavras como sanguessugas.
Curvam-se muito.
As mãos parecem prostitutas.
Alma não têm. Penduraram a alma.
Por fora parecem homens.
Custam apenas trinta dinheiros.
Apresentação
Cantar não é talvez suficiente.
Não porque não acendam de repente as noites
tuas palavras irmãs do fogo
mas só porque palavras são
apenas chama e vento.
E contudo canção
só cantando por vezes se resiste
só cantando se pode incomodar
quem à vileza do silêncio nos obriga.
Eu venho incomodar.
Trago palavras como bofetadas
e é inútil mandarem-me calar
porque a minha canção não fica no papel.
Eu venho tocar os sinos.
Planto espadas
e transformo destinos.
Os homens ouvem-me cantar
e a pele
dos homens fica arrepiada.
E depois é madrugada
dentro dos homens onde ponho
uma espingarda e um sonho.
E é inútil mandarem-me calar.
De certo modo sou um guerrilheiro
que traz a tiracolo
uma espingarda carregada de poemas
ou se preferem sou um marinheiro
que traz o mar ao colo
e meteu um navio pela terra dentro
e pendurou depois no vento
uma canção.
Já disse: planto espadas
e transformo destinos.
E para isso basta-me tocar os sinos
que cada homem tem no coração.
Não porque não acendam de repente as noites
tuas palavras irmãs do fogo
mas só porque palavras são
apenas chama e vento.
E contudo canção
só cantando por vezes se resiste
só cantando se pode incomodar
quem à vileza do silêncio nos obriga.
Eu venho incomodar.
Trago palavras como bofetadas
e é inútil mandarem-me calar
porque a minha canção não fica no papel.
Eu venho tocar os sinos.
Planto espadas
e transformo destinos.
Os homens ouvem-me cantar
e a pele
dos homens fica arrepiada.
E depois é madrugada
dentro dos homens onde ponho
uma espingarda e um sonho.
E é inútil mandarem-me calar.
De certo modo sou um guerrilheiro
que traz a tiracolo
uma espingarda carregada de poemas
ou se preferem sou um marinheiro
que traz o mar ao colo
e meteu um navio pela terra dentro
e pendurou depois no vento
uma canção.
Já disse: planto espadas
e transformo destinos.
E para isso basta-me tocar os sinos
que cada homem tem no coração.
16/05/07
aparte 11
São de liberdade
As mãos
quando o poema escrevem
são crueldade
as mãos
se com pedras ferem
são de mel
As mãos
Quando carícias fazem
são como fel
as mãos
quando uma vida desfazem
São conchas
quando protegem
são seiva
se nos aquecem
são pétalas
se nos afagam
são rios
se em nós passeiam
são beijos
se incendeiam
são barcos
se em nós navegam
são margens
se a nós se estendem
São de liberdade
As mãos
quando o poema escrevem
As mãos
quando o poema escrevem
são crueldade
as mãos
se com pedras ferem
são de mel
As mãos
Quando carícias fazem
são como fel
as mãos
quando uma vida desfazem
São conchas
quando protegem
são seiva
se nos aquecem
são pétalas
se nos afagam
são rios
se em nós passeiam
são beijos
se incendeiam
são barcos
se em nós navegam
são margens
se a nós se estendem
São de liberdade
As mãos
quando o poema escrevem
aparte 10
É de letras que me visto
É de letras que me dispo
É de letras o sofrimento
É de letras cada momento
É de letras cada beijo
É de letras que me faço desejo
É de letras que desperto
É de letras o pensamento
É de letras que me faço completo
É de letras que me dispo
É de letras o sofrimento
É de letras cada momento
É de letras cada beijo
É de letras que me faço desejo
É de letras que desperto
É de letras o pensamento
É de letras que me faço completo
No Sonho
Sempre no sonho me sinto
Sempre no sonho me olho
Olho-me com ideias que pinto
Durmo com cores que escolho
Sempre no sonho pinto
Sempre no sonho olho
Olho com palavras que sinto
Escrevo as imagens que escolho
E pinto e escrevo e olho
E leio no sonho
As linhas que aqui ponho
Os sonhos que desfolho
Sempre no sonho me olho
Olho-me com ideias que pinto
Durmo com cores que escolho
Sempre no sonho pinto
Sempre no sonho olho
Olho com palavras que sinto
Escrevo as imagens que escolho
E pinto e escrevo e olho
E leio no sonho
As linhas que aqui ponho
Os sonhos que desfolho
Em Abril
Em Abril
Fiz-me mil
Mil palavras gritadas
Mil imagens passadas
Numa fantasia febril
Em Abril
Foram mil
Os contos que contei
Os dias que passei
Num sabor juvenil
Em Abril ri
Em Abril me despi
Liberdade, diziam
Por ser verdade
Em Abril vivi!
Em Abril corri
Por tantas ruas
Com ideias tuas
Acordei e dormi
Em muitas luas
Em Abril acreditei
Em Abril acredito
Mesmo quando hesito
E me arrepio
Num Abril vazio...!
Fiz-me mil
Mil palavras gritadas
Mil imagens passadas
Numa fantasia febril
Em Abril
Foram mil
Os contos que contei
Os dias que passei
Num sabor juvenil
Em Abril ri
Em Abril me despi
Liberdade, diziam
Por ser verdade
Em Abril vivi!
Em Abril corri
Por tantas ruas
Com ideias tuas
Acordei e dormi
Em muitas luas
Em Abril acreditei
Em Abril acredito
Mesmo quando hesito
E me arrepio
Num Abril vazio...!
aparte 9
Quando me olhas
e os teus olhos brilham
vejo os meus olhos
no teu olhar
(e mesmo tão longe
sei o teu corpo
sei de cor o teu cheiro)
e nesse brilho
está tudo o que sinto
e tenho para te dar
(começo
por um imenso beijo)
e os teus olhos brilham
vejo os meus olhos
no teu olhar
(e mesmo tão longe
sei o teu corpo
sei de cor o teu cheiro)
e nesse brilho
está tudo o que sinto
e tenho para te dar
(começo
por um imenso beijo)
Há palavras que nos beijam
Há palavras que nos beijam
Como se tivessem boca.
Palavras de amor, de esperança,
De imenso amor, de esperança louca.
Palavras nuas que beijas
Quando a noite perde o rosto;
Palavras que se recusam
Aos muros do teu desgosto.
De repente coloridas
Entre palavras sem cor,
Esperadas inesperadas
Com a poesia ou o amor.
(O nome de quem se ama
Letra a letra revelado
No mármore distraído
No papel abandonado)
Palavras que nos transportam
Aonde a noite é mais forte,
Ao silêncio dos amantes
Abraçados contra a morte.
Como se tivessem boca.
Palavras de amor, de esperança,
De imenso amor, de esperança louca.
Palavras nuas que beijas
Quando a noite perde o rosto;
Palavras que se recusam
Aos muros do teu desgosto.
De repente coloridas
Entre palavras sem cor,
Esperadas inesperadas
Com a poesia ou o amor.
(O nome de quem se ama
Letra a letra revelado
No mármore distraído
No papel abandonado)
Palavras que nos transportam
Aonde a noite é mais forte,
Ao silêncio dos amantes
Abraçados contra a morte.
Etiquetas: aparte
"No Reino da Dinamarca",
Alexandre O'Neil
Só olho para o céu
Só olho para o céu
nas noites de lua despida
para atar os olhos nas estrelas
e ver melhor de lá a Terra e a vida.
A Terra dos braços dos teus rios.
A Terra dos olhos dos teus lagos.
A Terra do corpo do teu mar.
A Terra em que apetece ser crepúsculo
para adormecer e sonhar.
nas noites de lua despida
para atar os olhos nas estrelas
e ver melhor de lá a Terra e a vida.
A Terra dos braços dos teus rios.
A Terra dos olhos dos teus lagos.
A Terra do corpo do teu mar.
A Terra em que apetece ser crepúsculo
para adormecer e sonhar.
Etiquetas: aparte
"Idílio do Recomeço" (1951),
José Gomes Ferreira
sem título
Que importa perder a vida
em luta contra a traição,
se a Razão, mesmo vencida,
não deixa de ser Razão?
em luta contra a traição,
se a Razão, mesmo vencida,
não deixa de ser Razão?
Etiquetas: aparte
"Quando começo a cantar" (1943),
António Aleixo
Livre
Não há machado que corte
a raíz ao pensamento
Não há morte para o vento
Não há morte
Se ao morrer o coração
Morresse a luz que lhe é querida
Sem razão seria a vida
Sem razão
Nada apaga a luz que vive
Num amor num pensamento
Porque é livre como o vento
Porque é livre
a raíz ao pensamento
Não há morte para o vento
Não há morte
Se ao morrer o coração
Morresse a luz que lhe é querida
Sem razão seria a vida
Sem razão
Nada apaga a luz que vive
Num amor num pensamento
Porque é livre como o vento
Porque é livre
Etiquetas: aparte
"O Nosso Amargo Cancioneiro" (1973),
Carlos de Oliveira
15/05/07
aparte 8
Há dias em que é fácil
ver uma rosa sem espinho
Há dias em que é fácil
percorrer o caminho
tira os espinhos que puderes
e deixa-me o perfume da rosa...
é uma ilusão?!
Que importa, se assim for,
se cada sonho vivido
traz consigo uma nova flor…
ver uma rosa sem espinho
Há dias em que é fácil
percorrer o caminho
tira os espinhos que puderes
e deixa-me o perfume da rosa...
é uma ilusão?!
Que importa, se assim for,
se cada sonho vivido
traz consigo uma nova flor…
“What a Wonderful World”
I see trees of green, red roses too
I see them bloom for me and you
And I think to myself what a wonderful world.
I see skies of blue and clouds of white
The bright blessed day, the dark sacred night
And I think to myself what a wonderful world.
The colors of the rainbow so pretty in the sky
Are also on the faces of people going by
I see friends shaking hands saying how do you do
They're really saying I love you.
I hear babies crying, I watch them grow
They'll learn much more than I'll never know
And I think to myself what a wonderful world
Yes I think to myself what a wonderful world.
I see them bloom for me and you
And I think to myself what a wonderful world.
I see skies of blue and clouds of white
The bright blessed day, the dark sacred night
And I think to myself what a wonderful world.
The colors of the rainbow so pretty in the sky
Are also on the faces of people going by
I see friends shaking hands saying how do you do
They're really saying I love you.
I hear babies crying, I watch them grow
They'll learn much more than I'll never know
And I think to myself what a wonderful world
Yes I think to myself what a wonderful world.
14/05/07
POETA
Obreiro da vida,
operário do sonho,
militante do amor.
operário do sonho,
militante do amor.
Etiquetas: aparte
"Exercício de Escrita",
Zetho Cunha Gonçalves
sem título
Um olhar, vale por todas as palavras que se possam dizer e não dizer.
E tínhamos nós, tantas ostras na garganta!
E tínhamos nós, tantas ostras na garganta!
Etiquetas: aparte
"A Construção do Prazer - Reportagem do Silêncio",
Zetho Cunha Gonçalves
Regresso
Com o vento leve e solto quero voar
E feliz, vencer toda a distância
Que vai deste momento à minha infância,
E enfim desta saudade repousar.
Embalado no cante dos ganhões
Irei, como cansado peregrino,
Cumprir no Alentejo meu destino,
Terra raíz, bordada de emoções.
Vou, do regresso, fazer uma aventura
E esparaiar meus olhos p'la lonjura
Dos espaços sem limite onde vivi.
E o sonho alentejano que perdura,
Matizado em sombras de ternura,
Dirá que meu destino acaba ali!
E feliz, vencer toda a distância
Que vai deste momento à minha infância,
E enfim desta saudade repousar.
Embalado no cante dos ganhões
Irei, como cansado peregrino,
Cumprir no Alentejo meu destino,
Terra raíz, bordada de emoções.
Vou, do regresso, fazer uma aventura
E esparaiar meus olhos p'la lonjura
Dos espaços sem limite onde vivi.
E o sonho alentejano que perdura,
Matizado em sombras de ternura,
Dirá que meu destino acaba ali!
Etiquetas: aparte
2001,
Orlando da Fonseca Fernandes,
V Jogos Culturais do Concelho de Ferreira do Alentejo
Sonho Barragem
Alentejo que espreguiças na lonjura
Esse tédio dos teus dias sempre iguais,
Vives cantando oceanos de ternura
No verde-mar ondulante dos trigais.
Teus barros soltos gretados p'lo suão
São bocas a suplicar desesperadas,
Gitos inúteis que vão soltando em vão,
Mortas de sede, penando revoltadas.
Alentejo que até vais, por ironia,
Alternando num perpétuo desalento
Sonhos fartura vividos cada dia,
Com os prantos de securo e sofrimento.
Povoaram-te os teus sonhos de barragens,
Equívocos que já somam muitos anos,
Secam-te os olhos nas áridas paisagens,
Bebes promessas e choras desenganos.
Planície, que há muito esperas humilhada,
Ribeiras de água a cantar, dias a fio,
Ainda vais ter um dia uma alvorada
Onde o regato se muda em farto rio.
Esse tédio dos teus dias sempre iguais,
Vives cantando oceanos de ternura
No verde-mar ondulante dos trigais.
Teus barros soltos gretados p'lo suão
São bocas a suplicar desesperadas,
Gitos inúteis que vão soltando em vão,
Mortas de sede, penando revoltadas.
Alentejo que até vais, por ironia,
Alternando num perpétuo desalento
Sonhos fartura vividos cada dia,
Com os prantos de securo e sofrimento.
Povoaram-te os teus sonhos de barragens,
Equívocos que já somam muitos anos,
Secam-te os olhos nas áridas paisagens,
Bebes promessas e choras desenganos.
Planície, que há muito esperas humilhada,
Ribeiras de água a cantar, dias a fio,
Ainda vais ter um dia uma alvorada
Onde o regato se muda em farto rio.
Etiquetas: aparte
1998,
III Jogos Culturais do Concelho de Ferreira do Alentejo,
Orlando da Fonseca Fernandes
13/05/07
Canção
PUS O MEU sonho num navio
e o navio em cima do mar;
- depois, abri o mar com as mãos,
para o meu sonho naufragar.
Minhas mãos ainda estão molhadas
do azul das ondas entreabertas,
e a cor que escorre dos meus dedos
colore as areias desertas.
O vento vem vindo de longe,
a noite se curva de frio;
debaixo da água vai morrendo
meu sonho, dentro de um navio...
Chorarei quanto for preciso,
para fazer com que o mar cresça,
e o meu navio chegue ao fundo
e o meu sonho desapareça.
Depois, tudo estará perfeito;
praia lisa, águas ordenadas,
meus olhos secos como pedras
e as minhas duas mãos quebradas.
e o navio em cima do mar;
- depois, abri o mar com as mãos,
para o meu sonho naufragar.
Minhas mãos ainda estão molhadas
do azul das ondas entreabertas,
e a cor que escorre dos meus dedos
colore as areias desertas.
O vento vem vindo de longe,
a noite se curva de frio;
debaixo da água vai morrendo
meu sonho, dentro de um navio...
Chorarei quanto for preciso,
para fazer com que o mar cresça,
e o meu navio chegue ao fundo
e o meu sonho desapareça.
Depois, tudo estará perfeito;
praia lisa, águas ordenadas,
meus olhos secos como pedras
e as minhas duas mãos quebradas.
aparte 7
Teu corpo
mar
penetrante
mar
amar
em mim
delirante
meu corpo
areia
vencido
grão a grão
se deixa levar
perdido
em emoção
teu corpo
espuma
penetra
areia
perfuma
meu corpo
amanhece
tua vida
em mim
acontece
mar
penetrante
mar
amar
em mim
delirante
meu corpo
areia
vencido
grão a grão
se deixa levar
perdido
em emoção
teu corpo
espuma
penetra
areia
perfuma
meu corpo
amanhece
tua vida
em mim
acontece
aparte 6
Arrumo papéis
como se dessa forma
arrumasse a vida
Arrumo papéis
como se dessa forma
o tempo voasse
Arrumo papéis
como se dessa forma
a tristeza acabasse
Arrumo papéis
o tempo passa
a tristeza permanece
e a vida não acontece
como se dessa forma
arrumasse a vida
Arrumo papéis
como se dessa forma
o tempo voasse
Arrumo papéis
como se dessa forma
a tristeza acabasse
Arrumo papéis
o tempo passa
a tristeza permanece
e a vida não acontece
aparte 5
Não sabes
como me sinto
em cada palavra
em cada gesto
quando me tocas
me beijas, me exploras
Não sabes
como me sinto
quando te toco,
te beijo, te percorro
Não sabes
como me sinto
quando a ti me abandono
Não sabes
como sinto…
como me sinto
em cada palavra
em cada gesto
quando me tocas
me beijas, me exploras
Não sabes
como me sinto
quando te toco,
te beijo, te percorro
Não sabes
como me sinto
quando a ti me abandono
Não sabes
como sinto…
Tempo de Poesia
Todo o tempo é de poesia
Desde a névoa da manhã
à névoa do outro dia.
Desde a quentura do ventre
à frigidez da agonia.
Todo o tempo é de poesia.
Entre bombas que deflagram.
Corolas que se desdobram.
Corpos que em sangue soçobram.
Vidas que a amar se consagram.
Sob a cúpula sombria
das mãos que pedem vingança.
Sob o arco da aliança
da celeste alegoria.
Todo o tempo é de poesia
Desde a arrumação do caos
à confusão da harmonia
Desde a névoa da manhã
à névoa do outro dia.
Desde a quentura do ventre
à frigidez da agonia.
Todo o tempo é de poesia.
Entre bombas que deflagram.
Corolas que se desdobram.
Corpos que em sangue soçobram.
Vidas que a amar se consagram.
Sob a cúpula sombria
das mãos que pedem vingança.
Sob o arco da aliança
da celeste alegoria.
Todo o tempo é de poesia
Desde a arrumação do caos
à confusão da harmonia
Etiquetas: aparte
"Poemas Completos (1956-1967)",
António Gedeão
Poeta o que é?
Poeta o que é?
Um homem que leva
o facho da treva
no fundo da mina
- mas apenas vê
o que não ilumina.
Um homem que leva
o facho da treva
no fundo da mina
- mas apenas vê
o que não ilumina.
Poema
Para além do "ser ou não ser" dos
/ problemas ocos,
O que importa é isto:
- Penso nos outros.
Logo existo.
/ problemas ocos,
O que importa é isto:
- Penso nos outros.
Logo existo.
Retrato
Meu corpo é água.
Onda que vai e que vem,
abraça, foge, não pára...
No fundo, mágoa.
Meus olhos, água.
Fundura do mar salgado,
quem sabe onde tem seu fim?
No fundo, mágoa.
Minh'alma é água,
Que canta, que chora e fala:
doce cantiga das fontes,
brando choro das ribeiras,
marulho eterno das vagas...
No fundo, mágoa.
Onda que vai e que vem,
abraça, foge, não pára...
No fundo, mágoa.
Meus olhos, água.
Fundura do mar salgado,
quem sabe onde tem seu fim?
No fundo, mágoa.
Minh'alma é água,
Que canta, que chora e fala:
doce cantiga das fontes,
brando choro das ribeiras,
marulho eterno das vagas...
No fundo, mágoa.
Etiquetas: aparte
"Horto Fechado e Outros Poemas",
Armando Côrtes-Rodrigues
12/05/07
O Sorriso
Sorriso, diz-me aqui o dicionário, é o acto de sorrir. E sorrir (verbo intransitivo) é rir sem fazer ruído e executando contracção muscular da boca e dos olhos. Como se vê, está tudo errado. Começa logo por chamar intransitivo ao verbo, o que, tal como aprendemos na escola, exprime uma acção que, praticada pelo sujeito, se aplica a ele próprio e não passa para outro objecto ou outrem, e é, portanto, intransmissível… E quanto a dar por suficiente a contracção muscular, temos conversado. (…)
Caio em completo devaneio e ponho-me a sonhar um dicionário que desse precisamente, exactamente o sentido das palavras e transformasse em fio de prumo a rede em que, na prática de todos os dias, elas nos envolvem.
Não há dois sorrisos iguais. (…) …temos o sorriso de troça, o sorriso superior e o seu contrário humilde, o de ternura, o de cepticismo, o amargo e o irónico, o sorriso de esperança, o de condescendência, o deslumbrado, o de embaraço, e (porque não?) o de quem morre. (…) Mas nenhum deles é o Sorriso.
O Sorriso (este, com maiúscula) vem sempre de longe. É a manifestação de uma sabedoria profunda, não tem nada a ver com as contracções musculares e não cabe numa definição de dicionário. Principia por um leve mover de rosto, às vezes, hesitante, por um frémito interior que nasce nas mais secretas camadas do ser. Se move músculos é porque não tem outra maneira de exprimir-se. Mas não terá? Não conhecemos nós sorrisos que são rápidos clarões, como esse brilho súbito e inexplicável que soltam os peixes nas águas fundas? Quando a luz do Sol passa sobre os campos ao sabor do vento e da nuvem, que foi que na terra se moveu? E contudo era um sorriso.
Mas eu falava de gente, de nós, que fazemos a aprendizagem do sorriso e dos sorrisos ao longo da vida própria e das alheias. Nós que já corremos a gama toda dos sorrisos circunstanciais e a encaixámos numa só definição. E que, como é costume nestes casos, fizemos dessa definição a chave que não abre a porta que nos tapa o caminho. Pois o Sorriso está por trás dessa porta, como um tesouro de que só conhecemos breves e agudas cintilações (…)
A tudo isto é que eu chamo sabedoria. Oponho à ironia o sorriso, este que é compreensão e serenidade, única arma contra o absurdo que vive paredes-meias connosco, couraça contra as agressões – estrada real que se quer desimpedida de miragens e alienações. (…)
Dir-me-ão que não cabe tanto no sorriso. Eu digo que cabe. Soube-o a noite passada, quando foi ele a única resposta para a insónia e para os monstros do pesadelo nascido no sono onde o corpo acabou por deslizar, cansado e aflito. Sorrir assim, mesmo sem olhos que nos recebam, é o verbo mais transitivo de todas as gramáticas. Pessoal e rigorosamente transmissível. O ponto está em haver quem o conjugue.
Caio em completo devaneio e ponho-me a sonhar um dicionário que desse precisamente, exactamente o sentido das palavras e transformasse em fio de prumo a rede em que, na prática de todos os dias, elas nos envolvem.
Não há dois sorrisos iguais. (…) …temos o sorriso de troça, o sorriso superior e o seu contrário humilde, o de ternura, o de cepticismo, o amargo e o irónico, o sorriso de esperança, o de condescendência, o deslumbrado, o de embaraço, e (porque não?) o de quem morre. (…) Mas nenhum deles é o Sorriso.
O Sorriso (este, com maiúscula) vem sempre de longe. É a manifestação de uma sabedoria profunda, não tem nada a ver com as contracções musculares e não cabe numa definição de dicionário. Principia por um leve mover de rosto, às vezes, hesitante, por um frémito interior que nasce nas mais secretas camadas do ser. Se move músculos é porque não tem outra maneira de exprimir-se. Mas não terá? Não conhecemos nós sorrisos que são rápidos clarões, como esse brilho súbito e inexplicável que soltam os peixes nas águas fundas? Quando a luz do Sol passa sobre os campos ao sabor do vento e da nuvem, que foi que na terra se moveu? E contudo era um sorriso.
Mas eu falava de gente, de nós, que fazemos a aprendizagem do sorriso e dos sorrisos ao longo da vida própria e das alheias. Nós que já corremos a gama toda dos sorrisos circunstanciais e a encaixámos numa só definição. E que, como é costume nestes casos, fizemos dessa definição a chave que não abre a porta que nos tapa o caminho. Pois o Sorriso está por trás dessa porta, como um tesouro de que só conhecemos breves e agudas cintilações (…)
A tudo isto é que eu chamo sabedoria. Oponho à ironia o sorriso, este que é compreensão e serenidade, única arma contra o absurdo que vive paredes-meias connosco, couraça contra as agressões – estrada real que se quer desimpedida de miragens e alienações. (…)
Dir-me-ão que não cabe tanto no sorriso. Eu digo que cabe. Soube-o a noite passada, quando foi ele a única resposta para a insónia e para os monstros do pesadelo nascido no sono onde o corpo acabou por deslizar, cansado e aflito. Sorrir assim, mesmo sem olhos que nos recebam, é o verbo mais transitivo de todas as gramáticas. Pessoal e rigorosamente transmissível. O ponto está em haver quem o conjugue.
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"Deste Mundo E Do Outro"; José Saramago
As Palavras
As palavras são boas. As palavras são más. As palavras ofendem. As palavras pedem desculpa. As palavras queimam. As palavras acariciam. As palavras sãodadas, trocadas, oferecidas, vendidas e inventadas. As palavras estão ausentes. Algumas palavras sugam-nos, não nos largam: são como carraças: Vêm nos livros, nos jornais, nos "slogans" publicitários, nas legendas dos filmes, nas cartas e nos cartazes. As palavras aconselham, sugerem, insinuam, ordenam, impõem, segregam, eliminam. (...) Os cérebros estão cheios de palavras que vivem em boa paz com as suas contrárias inimigas. Por isso as pessoas fazem o contrário do que pensam, julgando pensar o que fazem. (...)
Porque as palavras deixaram de comunicar. Cada palavra é dita para que se não oiça outra palavra. A palavra, mesmo quando não afirma, afirma-se. A palavra não responde nem pergunta: amassa. (...) A palavra não mostra. A palavra disfarça.(...)
Há também o silêncio. O silêncio, por definição, é o que não se ouve. O silêncio escuta, examina, observa, pesa e analisa. O silêncio é fecundo. O silêncio é a terra negra e fértil, o húmus do ser, a melodia calada sob a luz solar. Caem sobre ele as palavras. Todas as palavras. As palavras boas e as más. O trigo e o joio. Mas só o trigo dá pão.
Porque as palavras deixaram de comunicar. Cada palavra é dita para que se não oiça outra palavra. A palavra, mesmo quando não afirma, afirma-se. A palavra não responde nem pergunta: amassa. (...) A palavra não mostra. A palavra disfarça.(...)
Há também o silêncio. O silêncio, por definição, é o que não se ouve. O silêncio escuta, examina, observa, pesa e analisa. O silêncio é fecundo. O silêncio é a terra negra e fértil, o húmus do ser, a melodia calada sob a luz solar. Caem sobre ele as palavras. Todas as palavras. As palavras boas e as más. O trigo e o joio. Mas só o trigo dá pão.
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"Deste Mundo E Do Outro",
José Saramago
Poesia
(...) Não venham também perguntar-me com que sentido me é dado apreender a Poesia - só lhes digo que não é com nenhum dos cinco (...)
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"O Segredo é Amar (1947)",
Sebastião da Gama
Uma palavra dorme
Uma palavra dorme em seu casulo
de saliva lavrada
está viva porém muda
e anulada
Uma palavra hiberna em seu conteúdo
Seu buraco de som seu palácio de letras:
Bela Adormecida à espera que tudo
volte a acordar nos poetas.
Diremos outras vezes
que uma esbelta palavra se levanta
e canta
o perfeito silêncio que a inventa.
Outras vezes diremos
que uma palavra tenta
ser apenas
o acto
que a desvenda.
de saliva lavrada
está viva porém muda
e anulada
Uma palavra hiberna em seu conteúdo
Seu buraco de som seu palácio de letras:
Bela Adormecida à espera que tudo
volte a acordar nos poetas.
Diremos outras vezes
que uma esbelta palavra se levanta
e canta
o perfeito silêncio que a inventa.
Outras vezes diremos
que uma palavra tenta
ser apenas
o acto
que a desvenda.
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"Sofrimento",
José Carlos Ary dos Santos
aparte 4
Quero…
...olhar-te
e que os meus olhos
te digam...
beija-me!
Quero…
…o teu corpo
E ele me diga
Quero-te!
E nesse ir e vir de dois corpos unidos
sedentos
suados
sintamo-nos vivos
para nos podermos sentir
finalmente
cansados..........
...olhar-te
e que os meus olhos
te digam...
beija-me!
Quero…
…o teu corpo
E ele me diga
Quero-te!
E nesse ir e vir de dois corpos unidos
sedentos
suados
sintamo-nos vivos
para nos podermos sentir
finalmente
cansados..........
POR ESTE RIO ACIMA
Por este rio acima
Deixando para trás
A côncava funda
Da casa do fumo
Cheguei perto do sonho
Flutuando nas águas
Dos rios dos céus
Escorre o gengibre e o mel
Sedas porcelanas
Pimenta e canela
Recebendo ofertas
De músicas suaves
Em nossas orelhas
leve como o ar
A terra a navegar
Meu bem como eu vou
Por este rio acima
Por este rio acima
Os barcos vão pintados
De muitas pinturas
Descrevem varandas
E os cabelos de Inês
Desenham memórias
Ao longo da água
Bosques enfeitiçados
Soutos laranjeiras
Campinas de trigo
Amores repartidos
Afagam as dores
Quando são sentidos
Monstros adormecidos
Na esfera do fogo
Como nasce a paz
Por este rio acima
Meu sonho
Quanto eu te quero
Eu nem sei
Eu nem sei
Fica um bocadinho mais
Que eu também
Que eu também
meu bem
Por este rio acima
isto que é de uns
Também é de outros
Não é mais nem menos
Nascidos foram todos
Do suor da fêmea
Do calor do macho
Aquilo que uns tratam
Não hão-de tratar
Outros de outra coisa
Pois o que vende o fresco
Não vende o salgado
Nem também o seco
Na terra em harmonia
Perfeita e suave
das margens do rio
Por este rio acima
Meu sonho
Quanto eu te quero
Eu nem sei
Eu nem sei
Fica um bocadinho mais
Que eu também
Que eu também
meu bem
Por este rio acima
Deixando para trás
A côncava funda
Da casa do fumo
Cheguei perto do sonho
Flutuando nas águas
Dos rios dos céus
Escorre o gengibre e o mel
Sedas porcelanas
Pimenta e canela
Recebendo ofertas
De músicas suaves
Em nossas orelhas
leve como o ar
A terra a navegar
Meu bem como eu vou
Por este rio acima
Deixando para trás
A côncava funda
Da casa do fumo
Cheguei perto do sonho
Flutuando nas águas
Dos rios dos céus
Escorre o gengibre e o mel
Sedas porcelanas
Pimenta e canela
Recebendo ofertas
De músicas suaves
Em nossas orelhas
leve como o ar
A terra a navegar
Meu bem como eu vou
Por este rio acima
Por este rio acima
Os barcos vão pintados
De muitas pinturas
Descrevem varandas
E os cabelos de Inês
Desenham memórias
Ao longo da água
Bosques enfeitiçados
Soutos laranjeiras
Campinas de trigo
Amores repartidos
Afagam as dores
Quando são sentidos
Monstros adormecidos
Na esfera do fogo
Como nasce a paz
Por este rio acima
Meu sonho
Quanto eu te quero
Eu nem sei
Eu nem sei
Fica um bocadinho mais
Que eu também
Que eu também
meu bem
Por este rio acima
isto que é de uns
Também é de outros
Não é mais nem menos
Nascidos foram todos
Do suor da fêmea
Do calor do macho
Aquilo que uns tratam
Não hão-de tratar
Outros de outra coisa
Pois o que vende o fresco
Não vende o salgado
Nem também o seco
Na terra em harmonia
Perfeita e suave
das margens do rio
Por este rio acima
Meu sonho
Quanto eu te quero
Eu nem sei
Eu nem sei
Fica um bocadinho mais
Que eu também
Que eu também
meu bem
Por este rio acima
Deixando para trás
A côncava funda
Da casa do fumo
Cheguei perto do sonho
Flutuando nas águas
Dos rios dos céus
Escorre o gengibre e o mel
Sedas porcelanas
Pimenta e canela
Recebendo ofertas
De músicas suaves
Em nossas orelhas
leve como o ar
A terra a navegar
Meu bem como eu vou
Por este rio acima
aparte 3
Não sei se estás
ou
se, estando, não estás
não sei se devo estar
ou
se, estando, não devo
não sei se escreva
ou
se, escrevendo, nada diga
não sei se amo
ou
se, amando, me cale
só sei que espero
numa espera sofrida
ou
se, estando, não estás
não sei se devo estar
ou
se, estando, não devo
não sei se escreva
ou
se, escrevendo, nada diga
não sei se amo
ou
se, amando, me cale
só sei que espero
numa espera sofrida
11/05/07
De uma Poesia...
De uma poesia esperam
tanta cousa!
E logo desesperam
se não ousa.
Mas a poesia nada tem com isso.
Ela não diz nem faz,
nem está sequer ao teu ao meu serviço.
Serão visões de paz,
aquilo que ela traz:
mas quanta guerra para falar nisso!
Uma só coisa ela será, se for
(e espera ou desespera
conforme o meu, o teu, o nosso amor):
Inverno ou Primavera,
e sempre uma outra dor
tanta cousa!
E logo desesperam
se não ousa.
Mas a poesia nada tem com isso.
Ela não diz nem faz,
nem está sequer ao teu ao meu serviço.
Serão visões de paz,
aquilo que ela traz:
mas quanta guerra para falar nisso!
Uma só coisa ela será, se for
(e espera ou desespera
conforme o meu, o teu, o nosso amor):
Inverno ou Primavera,
e sempre uma outra dor
Etiquetas: aparte
"Peregrinação ad hoc infecta",
Jorge de Sena
aparte 2
Por aqui
num tempo sem fim
num espaço
qualquer espaço
penso em ti…
vejo-te
sem te olhar
sinto-te
sem tocar
e espero…
espero por um momento
em que ver-te
seja olhar-te
em que sentir
seja também tocar-te
espero pelo momento
em que a distância se anule
espero-
-te
num tempo sem fim
num espaço
qualquer espaço
penso em ti…
vejo-te
sem te olhar
sinto-te
sem tocar
e espero…
espero por um momento
em que ver-te
seja olhar-te
em que sentir
seja também tocar-te
espero pelo momento
em que a distância se anule
espero-
-te
10/05/07
Ausência
Num deserto sem água
Numa noite sem lua
Num país sem nome
Ou numa terra nua
Por maior que seja o desespero
Nenhuma ausência é mais funda do que a tua
Numa noite sem lua
Num país sem nome
Ou numa terra nua
Por maior que seja o desespero
Nenhuma ausência é mais funda do que a tua
F
F
Vertical
um corte:
um sinal
sul-norte.
Dois traços
tão certos:
dois baraços abertos.
Optar
por um lado:
estar
acordado
Vertical
um corte:
um sinal
sul-norte.
Dois traços
tão certos:
dois baraços abertos.
Optar
por um lado:
estar
acordado
Etiquetas: aparte
"Estas São as Letras",
Mário Castrim
Fábula da Fábula
Era uma vez
Uma fábula famosa,
Alimentícia
E moralizadora,
Que, em verso e em prosa,
Toda a gente
Inteligente
Prudente
E sabedora
Repetia aos filhos,
Aos netos
E aos bisnetos.
À base de uns insectos,
De que não vale a pena fixar o nome,
A fábula garantia
Que quem cantava
Morria
De fome.
E realmente...
Simplesmente
Enquanto a fábula contava,
Uma demónio secreto segredava
Ao ouvido secreto
De cada criatura
Que quem não cantava
Morria de fartura.
Uma fábula famosa,
Alimentícia
E moralizadora,
Que, em verso e em prosa,
Toda a gente
Inteligente
Prudente
E sabedora
Repetia aos filhos,
Aos netos
E aos bisnetos.
À base de uns insectos,
De que não vale a pena fixar o nome,
A fábula garantia
Que quem cantava
Morria
De fome.
E realmente...
Simplesmente
Enquanto a fábula contava,
Uma demónio secreto segredava
Ao ouvido secreto
De cada criatura
Que quem não cantava
Morria de fartura.
aparte
Guardarei…
...o humor que me faz rir
...a ternura que me faz sorrir
...os beijos que me aquecem
...os sussurros que me enlouquecem
...os dedos que me acariciam...
a fonte que me saceia...
o sexo que me atravessa...
o orgasmo que me faz explodir
................................................................
os beijos que me dizem
...até amanhã!
E adormeço.
...o humor que me faz rir
...a ternura que me faz sorrir
...os beijos que me aquecem
...os sussurros que me enlouquecem
...os dedos que me acariciam...
a fonte que me saceia...
o sexo que me atravessa...
o orgasmo que me faz explodir
................................................................
os beijos que me dizem
...até amanhã!
E adormeço.
Canção de madrugar
De linho te vesti
de nardos te enfeitei
amor que nunca vi
mas sei.
Sei dos teus olhos acesos na noite
- sinais de bem despertar -
sei dos teus braços abertos a todos
que morrem devagar.
Sei meu amor inventado que um dia
teu corpo pode acender
uma fogueira de sol e de fúria
que nos verá nascer.
Irei beber em ti
o vinho que pisei
o fel do que sofri
e dei.
Dei do meu corpo um chicote de força.
Rasei meus olhos com água.
Dei do meu sangue uma espada de raiva
e uma lança de mágoa.
Dei do meu sonho uma corda de insónias
cravei meus braços com setas
descobri rosas alarguei cidades
e construí poetas.
E nunca te encontrei
na estrada do que fiz
amor que nunca logrei
mas quis.
Sei meu amor inventado que um dia
teu corpo há-de acender
uma fogueira de sol e de fúria
que nos verá nascer.
Então:
nem choros nem medos nem uivos
nem gritos nem pedras nem facas
nem fomes nem secas nem feras
nem ferros nem farpas nem farsas
nem forcas nem cardos nem dardos
José Carlos Ary dos Santos
de nardos te enfeitei
amor que nunca vi
mas sei.
Sei dos teus olhos acesos na noite
- sinais de bem despertar -
sei dos teus braços abertos a todos
que morrem devagar.
Sei meu amor inventado que um dia
teu corpo pode acender
uma fogueira de sol e de fúria
que nos verá nascer.
Irei beber em ti
o vinho que pisei
o fel do que sofri
e dei.
Dei do meu corpo um chicote de força.
Rasei meus olhos com água.
Dei do meu sangue uma espada de raiva
e uma lança de mágoa.
Dei do meu sonho uma corda de insónias
cravei meus braços com setas
descobri rosas alarguei cidades
e construí poetas.
E nunca te encontrei
na estrada do que fiz
amor que nunca logrei
mas quis.
Sei meu amor inventado que um dia
teu corpo há-de acender
uma fogueira de sol e de fúria
que nos verá nascer.
Então:
nem choros nem medos nem uivos
nem gritos nem pedras nem facas
nem fomes nem secas nem feras
nem ferros nem farpas nem farsas
nem forcas nem cardos nem dardos
nem guerras
José Carlos Ary dos Santos
Rosas Vermelhas
Nasci em Maio, o mês das rosas, diz-se. Talvez por isso eu fiz da rosa a minha flor, um símbolo, uma espécie de bandeira para mim mesmo.
E todos os anos, quando chegava o mês de Maio, ou mais exactamente, no dia 12 de Maio, às dez e um quarto da manhã (que foi a hora em que eu nasci), a minha mãe abria a porta do meu quarto, acordava-me com um beijo e colocava numa jarra um ramo de rosas vermelhas, sem palavras. Só as suas mãos, compondo as rosas, oficiavam nesse estranho silêncio cheio de ritos e ternura.
Nesse tempo o Sol nascia exactamente no meu quarto. Eu abria a janela. Em frente era o largo, a velha árvore do largo dos ciganos. Quando chegava o mês de Maio, eu abria a janela e ficava bêbado desse cheiro a fogueiras, carroças e ciganos. E respirava o ar de todas as viagens, da minha janela, capital do mundo, debruçado sobre o largo onde começavam todos os caminhos.
E tudo estava certo, nesse tempo, ou, pelo menos, nada tinha o sabor do irremediável. Nem mesmo a morte da minha tia. Por muito tempo ela ficou nos retratos e no jardim, bordando à sombra das magnólias, andando pela casa nos pequenos ruídos do dia-a-dia, até que, pouco a pouco, se foi confundindo com as muitas ausências que vinham sentar-se na cadeira, onde, dantes, minha tia se sentava.
E eu dormia poisado sobre a eternidade, como se tudo estivesse certo para sempre, eu dormia com muitos olhos, muitos gestos vigilantes sobre o meu sono. Por vezes tinha pesadelos, acordava, inquieto, a meio da noite, qualquer coisa parecia querer despedaçar-se e então exclamava:
- Mãe!
e logo essa voz, tão calma, entrava dentro de mim, mandava embora os fantasmas, e era de novo o meu quarto, a doce quentura da minha casa no cimo da ternura.
Não havia polícia nesse tempo. Ninguém roubaria a tranquilidade do meu sono, ninguém viria a meio da noite para me levar, porque bastava eu chamar:
- Mãe!
e logo uma voz, tão calma, mandava embora os fantasmas. E era a paz, nesse tempo, em que todos os anos, quando chegava o mês de Maio, ou mais exactamente, o dia 12 de Maio, às dez e um quarto da manhã, a minha mãe abria a porta do meu quarto e colocava, religiosamente, um ramo de rosas vermelhas sobre a minha vida, nesse tempo, em que dormir, acordar, nascer, crescer, viver, morrer, eram um rito no rito das estações.
Em Maio de 1963 eu estava na cadeia. Por vezes, a meio da noite, um grito abalava as traves da minha cabeça, direi mesmo da minha vida, e eu acordava suado, dolorido, como se um rato (talvez o medo?) me roesse o estômago. E era inútil chamar. Onde ficara essa voz que dantes vinha repor o sono no seu lugar, repondo a paz dentro de mim? E as manhãs penduradas no mês de Maio, onde acordar era uma festa? Onde ficara a ternura? Onde ficara a minha vida?
Em Maio de 1963 eu estava na cadeia. Dormia – como direi? – acordado sobre cada minuto. Tinha aprendido o irremediável. Alguma coisa, dentro de mim, se despedaçara para sempre (para sempre? Que quer dizer para sempre?). Era inútil chamar. Tinha aprendido, fisicamente, a solidão. Embora na cela do lado, alguém, batendo com os dedos na parede, me dissesse, como se fosse a voz longínqua do meu povo:
- Coragem!,
eu estava, pela primeira vez, fisicamente só, dentro do meu sono povoado por esse grito que estalava por vezes as traves da minha cabeça (onde essa voz que mandava embora os fantasmas?).
E era terrível essa manhã sem manhã, essa realidade branca e gelada, toda feita de paredes, grades, perguntas, gritos. Mesmo que na cela do lado, alguém, batendo com os dedos na parede, me dissesse:
- Bom dia!,
era terrível acordar nessa estreita paisagem com sete passos de comprimento por sete de largura, tão hostil, tão dolorosa como as regiões dos pesadelos. Porque acordar era ter a certeza de que a realidade não desmentiria o pesadelo.
Mesmo que os meus dedos batendo na parede transmitissem notícias dum homem que podia responder:
- Bom dia,
de cabeça erguida, era terrível acordar no mês de Maio, com a certeza de que no dia 12 a minha mãe não entraria pelo meu quarto, deixando-me na fronte um beijo, e rosas vermelhas sobre os meus vinte e sete anos.
Talvez seja preciso renunciar à felicidade para conquistar a felicidade. Eu estava na cadeia em Maio de 1963. Tinha aprendido a solidão. Tinha aprendido que se pode gritar com todas as nossas forças quando se acorda a meio da noite com um grito na cabeça e um rato (talvez o medo?), roendo-nos o estômago, que ninguém, ninguém virá repor a paz dentro de nós. E, então, é a altura de saber se as traves mestras dum homem resistirão. Pois só a tua voz, amigo, responderá ao teu apelo torturado na noite. E, nessa hora (a mais solitária das horas), se conseguires cerrar os dentes, dar um murro na parede, acender um cigarro, se conseguires vencer esse encontro com a solidão no mais fundo de ti próprio, com que alegria, com que estranha alegria, na manhã seguinte, tu responderás:
- Bom dia!,
mesmo que seja terrível acordar no mês de Maio, nessa estreita paisagem, gelada e branca, com sete passos de comprimento por sete de largura.
É certo que se podem escolher outros caminhos. Mas poderia eu ter escolhido outro caminho? Acaso poderia dormir descansado, onde quer que estivesse, sabendo que algures, na noite, há homens que batem, há homens que gritam?
Os fantasmas tinham entrado no meu sono, invadiram a minha casa no cimo da ternura; os fantasmas eram donos do País. E se eles viessem de repente, a meio da noite, e eu chamasse:
- Mãe!
a voz (tão calma) de minha mãe já nada poderia contra eles. Era um trabalho para mim, uma tarefa para todos aqueles que não podem suportar a sujeição. Eu nunca pude suportar a sujeição. Acaso poderia ter escolhido outro caminho?
Por isso, em Maio de 1963, eu estava na cadeia, isto é, de certo modo, eu estava no meu posto.
No dia 12 não acordei com o beijo de minha mãe.
Porém, nessa manhã (não posso dizer ao certo porque não tinha relógio, mas talvez – quem sabe? -, às dez e um quarto, que foi a hora em que eu nasci), o carcereiro abriu a porta e entregou-me, já aberta, uma carta de minha mãe. E ao desdobrar as folhas que vinham dentro do sobrescrito violado, a pétala vermelha, duma rosa vermelha, caiu, como uma lágrima de sangue, no chão da minha cela.
E todos os anos, quando chegava o mês de Maio, ou mais exactamente, no dia 12 de Maio, às dez e um quarto da manhã (que foi a hora em que eu nasci), a minha mãe abria a porta do meu quarto, acordava-me com um beijo e colocava numa jarra um ramo de rosas vermelhas, sem palavras. Só as suas mãos, compondo as rosas, oficiavam nesse estranho silêncio cheio de ritos e ternura.
Nesse tempo o Sol nascia exactamente no meu quarto. Eu abria a janela. Em frente era o largo, a velha árvore do largo dos ciganos. Quando chegava o mês de Maio, eu abria a janela e ficava bêbado desse cheiro a fogueiras, carroças e ciganos. E respirava o ar de todas as viagens, da minha janela, capital do mundo, debruçado sobre o largo onde começavam todos os caminhos.
E tudo estava certo, nesse tempo, ou, pelo menos, nada tinha o sabor do irremediável. Nem mesmo a morte da minha tia. Por muito tempo ela ficou nos retratos e no jardim, bordando à sombra das magnólias, andando pela casa nos pequenos ruídos do dia-a-dia, até que, pouco a pouco, se foi confundindo com as muitas ausências que vinham sentar-se na cadeira, onde, dantes, minha tia se sentava.
E eu dormia poisado sobre a eternidade, como se tudo estivesse certo para sempre, eu dormia com muitos olhos, muitos gestos vigilantes sobre o meu sono. Por vezes tinha pesadelos, acordava, inquieto, a meio da noite, qualquer coisa parecia querer despedaçar-se e então exclamava:
- Mãe!
e logo essa voz, tão calma, entrava dentro de mim, mandava embora os fantasmas, e era de novo o meu quarto, a doce quentura da minha casa no cimo da ternura.
Não havia polícia nesse tempo. Ninguém roubaria a tranquilidade do meu sono, ninguém viria a meio da noite para me levar, porque bastava eu chamar:
- Mãe!
e logo uma voz, tão calma, mandava embora os fantasmas. E era a paz, nesse tempo, em que todos os anos, quando chegava o mês de Maio, ou mais exactamente, o dia 12 de Maio, às dez e um quarto da manhã, a minha mãe abria a porta do meu quarto e colocava, religiosamente, um ramo de rosas vermelhas sobre a minha vida, nesse tempo, em que dormir, acordar, nascer, crescer, viver, morrer, eram um rito no rito das estações.
Em Maio de 1963 eu estava na cadeia. Por vezes, a meio da noite, um grito abalava as traves da minha cabeça, direi mesmo da minha vida, e eu acordava suado, dolorido, como se um rato (talvez o medo?) me roesse o estômago. E era inútil chamar. Onde ficara essa voz que dantes vinha repor o sono no seu lugar, repondo a paz dentro de mim? E as manhãs penduradas no mês de Maio, onde acordar era uma festa? Onde ficara a ternura? Onde ficara a minha vida?
Em Maio de 1963 eu estava na cadeia. Dormia – como direi? – acordado sobre cada minuto. Tinha aprendido o irremediável. Alguma coisa, dentro de mim, se despedaçara para sempre (para sempre? Que quer dizer para sempre?). Era inútil chamar. Tinha aprendido, fisicamente, a solidão. Embora na cela do lado, alguém, batendo com os dedos na parede, me dissesse, como se fosse a voz longínqua do meu povo:
- Coragem!,
eu estava, pela primeira vez, fisicamente só, dentro do meu sono povoado por esse grito que estalava por vezes as traves da minha cabeça (onde essa voz que mandava embora os fantasmas?).
E era terrível essa manhã sem manhã, essa realidade branca e gelada, toda feita de paredes, grades, perguntas, gritos. Mesmo que na cela do lado, alguém, batendo com os dedos na parede, me dissesse:
- Bom dia!,
era terrível acordar nessa estreita paisagem com sete passos de comprimento por sete de largura, tão hostil, tão dolorosa como as regiões dos pesadelos. Porque acordar era ter a certeza de que a realidade não desmentiria o pesadelo.
Mesmo que os meus dedos batendo na parede transmitissem notícias dum homem que podia responder:
- Bom dia,
de cabeça erguida, era terrível acordar no mês de Maio, com a certeza de que no dia 12 a minha mãe não entraria pelo meu quarto, deixando-me na fronte um beijo, e rosas vermelhas sobre os meus vinte e sete anos.
Talvez seja preciso renunciar à felicidade para conquistar a felicidade. Eu estava na cadeia em Maio de 1963. Tinha aprendido a solidão. Tinha aprendido que se pode gritar com todas as nossas forças quando se acorda a meio da noite com um grito na cabeça e um rato (talvez o medo?), roendo-nos o estômago, que ninguém, ninguém virá repor a paz dentro de nós. E, então, é a altura de saber se as traves mestras dum homem resistirão. Pois só a tua voz, amigo, responderá ao teu apelo torturado na noite. E, nessa hora (a mais solitária das horas), se conseguires cerrar os dentes, dar um murro na parede, acender um cigarro, se conseguires vencer esse encontro com a solidão no mais fundo de ti próprio, com que alegria, com que estranha alegria, na manhã seguinte, tu responderás:
- Bom dia!,
mesmo que seja terrível acordar no mês de Maio, nessa estreita paisagem, gelada e branca, com sete passos de comprimento por sete de largura.
É certo que se podem escolher outros caminhos. Mas poderia eu ter escolhido outro caminho? Acaso poderia dormir descansado, onde quer que estivesse, sabendo que algures, na noite, há homens que batem, há homens que gritam?
Os fantasmas tinham entrado no meu sono, invadiram a minha casa no cimo da ternura; os fantasmas eram donos do País. E se eles viessem de repente, a meio da noite, e eu chamasse:
- Mãe!
a voz (tão calma) de minha mãe já nada poderia contra eles. Era um trabalho para mim, uma tarefa para todos aqueles que não podem suportar a sujeição. Eu nunca pude suportar a sujeição. Acaso poderia ter escolhido outro caminho?
Por isso, em Maio de 1963, eu estava na cadeia, isto é, de certo modo, eu estava no meu posto.
No dia 12 não acordei com o beijo de minha mãe.
Porém, nessa manhã (não posso dizer ao certo porque não tinha relógio, mas talvez – quem sabe? -, às dez e um quarto, que foi a hora em que eu nasci), o carcereiro abriu a porta e entregou-me, já aberta, uma carta de minha mãe. E ao desdobrar as folhas que vinham dentro do sobrescrito violado, a pétala vermelha, duma rosa vermelha, caiu, como uma lágrima de sangue, no chão da minha cela.
in, "Praça da Canção", Manuel Alegre, Editora Ulisseia, Lisboa, 2ª Ed.
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